LUGAR PRIMEIRO N. 5 – PPGSA-
IFCS-UFRJ
Figuras Emblemáticas da
Responsabilidade
Cristina Câmara
Este artigo está baseado num capítulo de minha tese de
doutorado - “Ativismo, ajuda mútua e assistência: a atuação das Organizações
Não-Governamentais na luta contra a aids” (PPGSA-UFRJ)-, no qual procuro apontar
como as inserções individuais influenciam na formação dos grupos organizados na
luta contra a aids e contribuem na elaboração diferenciada dos serviços que
estes grupos oferecem às pessoas vivendo com HIV ou aids.
As posições sociais que os indivíduos ocupam na
sociedade e como vêem o mundo onde vivem são imprescindíveis no entendimento da
pandemia da aids, pois é através das inserções individuais que ela se expressa
na vida pública e, principalmente, porque as trajetórias individuais daqueles
envolvidos na luta contra a aids são extremamente importantes na maneira como
vivenciam a soropositividade ou a aids, relacionando-as às representações
sociais geradas em torno da pandemia.(1) A idéia de trajetória está referida
pela abordagem de Bourdieu (1996:189), entendida “... como série de
posições sucessivamente ocupadas por um mesmo agente (ou um mesmo grupo)
num espaço que é ele próprio um devir, estando sujeito a incessantes
transformações.”
A pandemia da aids é exemplar no que se refere à
intervenção pública da pessoa. Pode-se apontar diversas formas de engajamento,
mas o que importa aqui é que além de abraçar uma causa pública este reflita um
investimento pessoal. O engajamento individual ganha a cena pública fazendo com
que as pessoas deixem de ocupar lugares passivos ou mesmo de vítimas, aparecendo
como “figuras emblemáticas da responsabilidade” (Peroni, 1997:262). No lugar da
fatalidade, surge a presença responsável das pessoas e seu poder sobre a
resposta à pandemia. As pessoas atingidas assumem os efeitos trazidos pela aids,
doam-se à sensibilização a respeito da pandemia e contribuem na prevenção.
Assumem desde o estigma que recebem por um suposto comportamento irresponsável,
passando por um compromisso em assegurar aos grupos mais vulneráveis as
condições necessárias ao comportamento preventivo, até o modelo prático da
responsabilidade pessoal. As experiências com a aids fazem com que as pessoas
lancem mão de um lugar de autoria. As pessoas vivendo com HIV ou aids recusam-se
a delegar a palavra sobre si, elas a tomam. Neste sentido, a pandemia da aids se
expressa nas inserções individuais, ao mesmo tempo em que cria repercussões
públicas através da exposição da pessoa. A experiência com a aids cria um lugar
de cumplicidade para as pessoas envolvidas e contribui na construção de uma nova
identidade a partir da soropositividade, mas ela também se apresenta de forma
multifacetada e isto pode ser observado através das trajetórias individuais, que
trazem experiências diversas do desafio cotidiano que é viver com a
soropositividade ou a aids.
As trajetórias de Betinho, Herbert Daniel e Cazuza
retratam três figuras emblemáticas no enfrentamento da pandemia da aids, que
repercutirão no cenário mais amplo e na concepção que os grupos organizados irão
assumir sobre a mesma. Estas três trajetórias dão visibilidade e, de certa
forma, registram relatos de grupos inicialmente mais vulneráveis à aids,
definidos como ‘grupos de risco’: os hemofílicos, os homossexuais e os usuários
de drogas injetáveis. A exposição destas três pessoas que se tornaram públicas,
em diferentes esferas, traz à tona a maneira como a aids começa a fazer parte do
mundo das pessoas, traz a reflexão sobre a vida cotidiana depois da aids. Algo
novo, mas que se soma às referências biográficas. O passado é reapropriado e
atualizado nas mentalidades e nas práticas das pessoas. As trajetórias de
Betinho, Daniel e Cazuza constróem três matrizes que, cada uma a sua maneira,
corroboram, incentivam e evidenciam o engajamento público de pessoas que se
descobrem soropositivas ou com aids. Estas pessoas respondem à aids trazendo
características pessoais, intimidades, formas de sociabilidade e referências de
pertencimento a ambientes políticos e sociais próprios.
Betinho e Herbert Daniel pertencem à “geração 68”.(2)
Começam a encontrar um novo campo de atuação social na volta do exílio, mas
seguindo caminhos distintos que se cruzam na luta contra a aids. Os diferentes
percursos são fundamentais nas concepções sobre a aids que marcam as
organizações que fundam e presidem durante anos, ao mesmo tempo que são
complementares e hegemônicos no campo da aids por um determinado período. Ambos
problematizam a pandemia baseados em aspectos sócio-políticos e numa visão
humanista, sintonizados com o cenário mais amplo. Na verdade, estas são
características presentes nas suas trajetórias políticas e que servem como uma
das lentes sob as quais focalizam a questão da aids. Entretanto, os grupos
organizados em resposta à pandemia nos quais atuam, por vezes aparecem como
centralizadores de poder, de conhecimento e das relações que conseguem
estabelecer por causa de suas pessoas públicas.
Cazuza, por sua vez, desempenha um papel fundamental na
cena pública da aids. Primeiro, por ser um artista no auge de sua carreira que
assume estar com aids quando o meio artístico é alvo das associações
preconceituosas trazidas pela pandemia. Em segundo lugar, ao se utilizar da
mídia leva-a a mudar a abordagem dispensada até então às pessoas com aids.
Cazuza rouba a cena ao se auto-nomear como uma pessoa vivendo com aids. Tentando
destacar alguns traços que denotem a singularidade biográfica de cada um –
Betinho, Daniel e Cazuza – relaciona-se o viver com aids, as necessidades dos
indivíduos e o fato de influenciarem na criação de grupos organizados na luta
contra a aids.
Herbert de Souza, o Betinho
Nascido Herbert de Souza, no dia 3 de novembro de 1935,
em Bocaiúva, Minas Gerais, a primeira referência que marca toda a vida de
Betinho e que o expõe à infecção pelo vírus HIV é a hemofilia. Sua lembrança da
infância e da adolescência é, como ele mesmo diz “… uma lembrança de cama, dor e
de intervalos de saúde” (Souza, 1996b:21). Somente aos 18 anos passa a ter um
acompanhamento médico especializado, até então não sabia, por exemplo, que a
transfusão corta a hemorragia, o que fazia da hemofilia uma doença realmente
fatal. Em No fio da navalha, lembra:
Porque eu só fui realmente encontrar o conhecimento
científico sobre a doença já com 18 anos, em Belo Horizonte, quando entrei em
contato com o primeiro hematólogo. Antes disso eu era tratado por médico de
família. E o meu médico, durante muito tempo, que tratava inclusive das
hemorragias, era otorrinolaringologista, o Dr. Expedito. Eu sofria feito um
cachorro (Souza, 1996b:20).
A maneira como os hemofílicos se contatam com a aids e
como reagem a ela tem sido apontada como diferente da experiência vivida por
homens homossexuais. A pesquisa de Pierret (1996) indica que os hemofílicos
viviam um tempo cronológico ritmado por acidentes hemorrágicos, com
consequências mais ou menos significativas, e que o vírus HIV surge como um
outro tipo de ameaça. A hemofilia podia provocar a morte, mas depois dos
tratamentos introduzidos nos anos 70 isto seria acidental. Com a aids a ameaça
mortal torna-se irreversível, fazendo com que os hemofílicos estabeleçam uma
relação ambígüa com os médicos e passem a medir seu tempo em função de uma
possível manifestação da doença e do que lhes resta a viver. Os projetos não são
mais planejados a longo prazo e a vida está sempre sob uma ameaça mortal
próxima. O que não significa a ausência de projetos, a trajetória de Betinho
mostra exatamente o contrário. A vida revisitada confunde-se com os projetos
políticos e as ações empreendidas. Mas, o que se destaca na análise de Pierret
(1996) é a retirada de uma idéia de destino individual atribuído a
comportamentos e emoções que são partilhados por um grupo social. Neste caso,
como assinala Levi (1996:176), “... não se trata de reduzir as condutas a
comportamentos-tipos, mas de interpretar as vicissitudes biográficas à luz de um
contexto que as torne possíveis e, logo, normais.”
Além da hemofilia, que aproxima Betinho da consciência
de ser mortal, aos 15 anos adoece com uma tuberculose, na época a doença
incurável que tem como resposta o isolamento. No seu caso não chega ao
sanatório, mas, como relembra, fica alguns anos “… no fundo do quintal, no
quarto da empregada, onde vivi praticamente trancado, dos 15 aos 18 anos.”
(Souza, 1996b:24). Nesse período o apego à religião é central, fazendo-o
acreditar na cura da doença. Por um lado, produzindo algumas
barreiras:
Porque quando estava tuberculoso, no final, eu já estava
achando que era melhor morrer do que viver. Porque aquilo ali não tinha futuro,
o meu futuro era piorar, piorar… morrer de hemoptise. Quando surge a Hidrazida,
e antes de surgir a Hidrazida, começou a brotar na minha cabeça a seguinte
idéia: se eu conseguir ser puro de alma, não pecar, eu vou conseguir purificar o
meu pulmão. Então eu passo a crer numa solda entre ser puro – e ser puro
significava pecado sexual, mulher – e a mancha. E travei uma luta titânica
comigo para expurgar a sexualidade (Souza, 1996b:72).(3)
Por outro lado, deixando marcas nas reflexões e ações
políticas, como recorda na entrevista em No fio da
navalha.
Eu acho que fiquei com as coisas mais substantivas do
cristianismo, certos ideais humanísticos, o problema da liberdade. O pensamento
democrático que tenho hoje, em grande parte é tributário disso. Mas, sem a fé,
sem a comunhão, sem a missa, sem a hierarquia e sem a Igreja. Tirando isso, o
que li e vivi em relação ao compromisso com o outro, com o engajamento na
política, a solidariedade, estava ali. Eu sou um sujeito eticamente amarrado a
isso. Se eu hoje resolvesse ser um sacana, não conseguiria. É como fumar
maconha: mesmo que eu decida que vou fumar maconha, não consigo. (Souza,
1996b:74).
Quando sai do isolamento, Betinho passa a atuar no
movimento estudantil ligado à Ação Católica. Sua apreensão do mundo toma feições
mais políticas do que religiosas no período entre 1959 e 1962, ainda que haja
proximidades com a ala progressista da Igreja Católica. Uma transição que leva à
fundação da Ação Popular - AP.(4) Até 1964, cerca de 90% dos militantes
políticos declaram-se católicos. Há uma continuidade, apesar da ruptura com a
tradição cristã, e em 1968-69 “o maoísmo tornou-se nossa nova religião” (Souza,
1996a:21). Em 1961, quando Aldo Arantes, militante da Juventude Universitária
Católica - JUC – é eleito presidente da União Nacional dos Estudantes – UNE -,
Betinho tem a idéia de uma UNE volante e começam a reestruturação do Centro
Popular de Cultura – CPC. Dessa experiência torna-se um dos fundadores da AP, em
1962.
Quanto à formação acadêmica, Betinho cursa a Faculdade
de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais, graduando-se em
sociologia, em 1962. Participa da luta do movimento operário e pelas “reformas
de base” que marcam o governo João Goulart, além de assumir a função de
conselheiro do Ministro da Educação, em 1963, por sete meses. Depois do golpe de
1964, continua na AP, na resistência à ditadura, apesar de gradativamente ir se
afastando do que considera como “visões cada vez mais estreitas” (Souza,
1996a:33). Seu primeiro destino no exílio é o Uruguai, para onde seguem os
dirigentes do movimento popular brasileiro. Nas inevitáveis discussões sobre o
golpe, surgem duas estratégias de enfrentamento: uma defendendo a insurreição,
um golpe através da Brigada com a participação do Exército, alternativa de
Leonel Brizola. A outra, a guerrilha, a opção de Betinho.
Quando a gente viu que não saía insurreição e que
poderia sair guerrilha e que nós tínhamos a Ação Popular para ser reorganizada,
porque estava entregue lá à gente de São Paulo, a gente falou: “Não, o nosso
papel é lá, organizando a AP para participar da guerrilha.” (Souza,
1996b:64).
Preso no Natal de 1966, devido à sua saúde não é
torturado, comprometendo-se a se reapresentar depois das Festas. Busca ajuda no
consulado mexicano, onde fica por dez dias e entra novamente na clandestinidade.
Em 1971, segue para o Chile rompendo no ano seguinte com a AP. No Chile,
trabalha como pesquisador da Faculdad Latinoamericana de Ciencias
Sociales - FLACSO -, em Santiago, e assessora Joan Garcés, conselheiro
pessoal de Salvador Allende. Depois do golpe de Pinochet e do assassinato de
Allende, em setembro de 1973, Betinho busca refúgio na embaixada do Panamá, onde
fica um breve período antes de ir para o Canadá. Em Toronto, começa o doutorado
dando novo rumo à sua história pessoal.
Com a anistia, em 1979, interrompe o doutorado que
pretendia concluir no México e volta do exílio. Betinho traz a experiência de um
novo modo de organização da sociedade civil, que não passa pelos partidos
políticos nem pelos sindicatos. É este modelo que, em 1981, orienta a criação do
Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas – Ibase – sob dois
objetivos principais: a democratização da informação e as políticas públicas.
Voltei com a idéia, nascida da correspondência com meu
amigo Carlos Alberto Afonso, de fundar no Brasil um instituto que acompanhasse
as políticas públicas, segundo o modelo dos Think Tanks americanos, capaz de
analisar, acompanhar e dirigir as políticas governamentais. Isso não existia no
Brasil. Voltei com esse plano e tratei de concretizá-lo (Souza,
1996a:60).
Tudo que diz respeito a qualquer ameaça à democracia
passa a ter uma atenção especial da organização. O Ibase é uma ONG considerada
pioneira no uso da informática e das redes de comunicação eletrônica para a ação
social e intervenção política. A partir de sua criação, Betinho passa a se
recusar a integrar o mundo tradicional da política, mesmo no campo da esquerda.
Seu perfil e atuação pública são construídos no espaço das ONGs (Landim,
1998a).
Tendo o país saído recentemente da ditadura militar, é
evidente, no momento, a dicotomia entre sociedade e Estado. O cerne do debate
sendo as lutas pela democracia e pela liberdade de expressão, e os partidos
políticos vistos como os grupos intermediários entre a sociedade civil e o
Estado. A prestação de serviços, associada à prática assistencialista, de modo
geral é vista como da competência do Estado. Segundo a leitura de Betinho
(1996b), as ONGs nascem como anti-governamentais e depois do final da ditadura é
que se tornam não-governamentais. A partir de sua trajetória política e das
idéias que traz do exílio, Betinho encarna a figura do ‘intelectual
comprometido’ que será importante para assessorar essa nova forma de
organização. Esta figura tende a minimizar a distância entre os movimentos
populares e os Centros de Educação Popular, posteriormente conhecidos como
ONGs.
Se com a política a história pessoal de Betinho não é
linear, o mesmo se pode dizer com relação aos desafios que enfrenta com a saúde.
Em 1985, quando o teste anti-HIV é disponibilizado no Brasil, estima-se que
entre 80% e 90% dos hemofílicos estejam contaminados com o vírus HIV. Em 1986,
Betinho faz o teste e descobre que está soropositivo.
Do ponto de vista pessoal, a Aids foi um péssimo
presente que recebi numa etapa em que eu acreditava que estava começando a ficar
livre da hemofilia. E a hemofilia, com a idade, vai ficando mais domesticada.
Nos últimos anos eu estava numa situação estabillizada e a hemofilia
praticamente não comparecia. Quando começava a trabalhar essa nova realidade,
apareceu de forma bastante contundente a questão da Aids. Ter o vírus significa
não somente uma espécie de condenação à morte, mas ou menos antecipada, como
também – como o Herbert Daniel chamava – a morte civil. Se decreta a morte do
cara, ele está excluído das relações de trabalho, sociais e sexuais. É uma coisa
muito forte. E no meu caso isso veio acompanhado da manifestação simultânea da
doença em dois irmãos e, um ano e meio depois, da morte dos dois, com a
diferença de um mês entre uma e outra. Foi um período barra pesada. Eu decidi
enfrentar esse problema de modo político. Durante dois anos falei sobre Aids, no
Brasil inteiro: rádio, televisão, jornal e seminário.(5)
Mais uma vez, Betinho se vê diante da morte - “A
presença da morte pertence à minha biografia” (Souza, 1996a:92). A doença
aparece como algo recorrente na sua vida. Primeiro a hemofilia, depois a
tuberculose, mas a aids não é como as outras e o mundo onde ela surge também é
outro. Em várias entrevistas e artigos, Betinho fala sobre a importância de
fazer da aids um tema de debate público, não exclusivamente médico, e dedica-se
a isto, considerando ainda que teria mais ‘facilidade’ do que os homossexuais
para tal, devido aos preconceitos com relação à homossexualidade e à associação
direta entre aids e drogas (Souza, 1996; 1997).
O percurso biográfico introduz e compõe inovações com
seu entorno. A trajetória de Betinho atravessa épocas nas quais as percepções
sobre as relações entre indivíduos e sociedade, especialmente na política,
mudam. A militância ao longo de sua vida vai se transformando, pessoal e
coletivamente, mas reatualiza um certo altruísmo que o faz voltar a atenção para
as mudanças sociais, ainda que a ênfase sobre o individual mude ao longo do
percurso. Evidentemente, esse eixo segue paralelamente às transformações na
sociedade brasileira e na forma de se fazer política. O modelo do militante
dedicado a uma causa pública e que se projeta como vanguarda é uma marca na
história política da esquerda. Betinho transita entre esta marca altruísta da
militância de esquerda e a personalização – que age como um processo inseparável
da organização das cenas públicas e de sua atualização (Ion e Peroni, 1997) -
evidente na experiência com a aids, mas de maneira alguma perde de vista o
coletivo.
Em 1986, Betinho torna-se um dos fundadores e Presidente
da Abia, a segunda organização não-governamental brasileira criada em resposta à
pandemia da aids.(6) Dedica-se intensamente à luta contra a aids nos dois
primeiros anos de existência da associação, com destacada expressão na luta pelo
controle do sangue, especialmente durante a Assembléia Nacional Constituinte.
Nesse período expõe-se publicamente, falando na primeira pessoa e manipulando
quando necessário seu lugar, ainda que, tal como analisado por Pierret (1996),
os hemofílicos não reorganizem a vida e a identidade possível em torno da noção
de soropositividade, mas do ‘ter aids’. A infecção pelo vírus HIV traduz-se na
reafirmação biográfica (Pierret, 1996), levando à sensação de perda das
conquistas para a hemofilia dos últimos trinta anos e reapresentando a imagem da
‘vítima’.
Depois das mortes de Henfil e Francisco Mário, seus
irmãos, Betinho se afasta do cotidiano da Abia, mesmo que tenha tido
contribuições esporádicas e que continue como Presidente até sua morte.(7)
Quando da morte de meus dois irmãos, decidi passar a
direção da Abia a Herbert Daniel, que teve um papel primordial na luta contra a
doença. Ele havia declarado publicamente que era homossexual e estava
contaminado. Depois, ele ficou doente e morreu. Eu me afastei progressivamente
daquela atividade, pois penso já ter dado minha contribuição, minha cota, o que
não impede que, de tempos em tempos, eu seja levado a fazer declarações, a
falar. Jamais me recuso a falar da aids, mas falar o tempo todo é uma maneira
suicida de viver (Souza, 1996a:88).
A maneira idealizada como algumas vezes aparecem a
clandestinidade e o exílio esconde características próprias às trajetórias
individuais e leva à criação de vínculos que inexistem. Betinho e Daniel só
vieram a se conhecer pessoalmente na luta contra a aids. Devido à atuação
política de Herbert Daniel com Lizst Vieira, uma amiga em comum e Secretária
Executiva da Abia, convida-o a participar de uma das reuniões do que se tornaria
o Conselho de Curadores. Pela participação, pelo fato de ser articulado
politicamente e de escrever muito bem, logo depois é convidado a trabalhar
efetivamente na organização.
O fato de ter optado por não estar à frente do trabalho
cotidiano na Abia, não significa que Betinho tenha saído da cena pública. Desde
então, dedica-se quase exclusivamente ao Ibase. Em 1992, Betinho participa do
Movimento pela Ética na Política, uma coalizão de cerca de 900 organizações a
favor da destituição do então Presidente da República, Fernando Collor de Melo,
acusado de corrupção. Depois do impeachment, os representantes destas
organizações voltam a se reunir para discutir o que fazer, considerando a
surpresa com a participação popular e a tentativa de mantê-la. Agora o novo
impeachment é contra a fome e a partir das palavras de Dom Luciano Mendes
de Almeida nasce o nome do movimento da Ação da Cidadania contra a Fome, a
Miséria e pela Vida (Souza, 1996b).(8) A figura de Betinho torna-se o expoente
da campanha popularizada como a ‘Campanha contra a fome’ ou a ‘Campanha do
Betinho’. O ponto central é o incentivo da ação de cidadãos. Não cabe aqui
entrar nos pormenores da Campanha, ainda que o movimento de luta contra a aids
apresente indícios que repercutirão na mesma, mas marcar a continuidade e a
coerência da atuação política de Betinho.
Herbert de Souza, o Betinho, morreu aos 61 anos em sua
casa, em Botafogo, no dia 9 de agosto de 1997.
Herbert Eustáquio de Carvalho ou Herbert
Daniel
A trajetória de Herbert Daniel é bastante diferente da
de Betinho. Herbert Eustáquio de Carvalho nasceu em 14 de dezembro de 1946,
Daniel é um dos codinomes da vida clandestina que acaba utilizando como nome
próprio. É ele mesmo quem se apresenta.
Meu nome é Herbert. Este ganhei no registro, que me
indicava brasileiro, branco e sexo masculino. Depois, mais tarde, passei a ser
conhecido como Daniel. Este ganhei como nome-de-guerra, no final dos anos
sessenta, quando participei da luta armada, que me registrava entre uma minoria
que queria combater a ditadura com armas, porque tínhamos então certas idéias
(nem todas tão certas) de política e liberdade. Vivi anos clandestino no país.
Depois da derrota, saí para o exílio, donde voltei em 81. Pensei muito na
derrota, principalmente porque vivi anos duplamente clandestino: uma das
clandestinidades me registrava numa minoria que parecia afrontar o sexo
com que fui registrado. Ser homossexual, o que é isto? Na época da guerrilha,
sexo era assunto “pessoal”, não era “político”. A separação entre pessoal e
político, entre público e privado, é uma das bases da ética de toda política
conservadora. A esquerda, adotando essa ética conservadora, pensando de uma
certa forma o poder, pensou um corpo abstrato, “socialista”, onde o sexo era uma
tecnologia a serviço da procriação, ou só procriação de um prazer conformado a
preconceitos. (Deixa Aflorar, 1986:7)
Mineiro como Betinho, Herbert Daniel começa o curso de
medicina na Universidade Federal de Minas Gerais, no final de 1964. A formação
na área médica e a leitura crítica sobre a racionalidade médica serão resgatadas
no debate que se estabelece com o advento da pandemia da aids. Na mesma
universidade, participa do Movimento Estudantil, tendo sido Vice-Presidente do
Diretório Central dos Estudantes – DCE - e também escreve peças para o teatro
estudantil. Em Belo Horizonte, trabalha como crítico de cinema no rádio.
Empolgado depois da leitura do Manifesto Comunista, espera ansiosamente ser
recrutado para a luta:
Opção revolucionária. Mas pra meu azar nenhuma proposta
de ação prática me vinha dos militantes que conhecia. Muito ocupados, e poucos
eram então, não se ocupavam com meu recrutamento e eu esperava que. Me dizia:
merda, não devo ser bom candidato a revolucionário, já que não querem me
engajar. Duvidava: vai ver que sou inapto; às vezes, é que sou homossexual e
eles não aceitam gente assim. Mas: não dou pinta, sou enrustido, será que
desconfiam e… ? (Daniel, 1982:86).
Ao se envolver cada vez mais com a ação política,
depara-se com perguntas que se são ‘inquestionáveis’ para alguns, são também
conflituosas para outros, como: O que deve ser considerado mais ou menos
importante como bandeira de luta das Organizações? Quais temas devem ser alvos
de preocupação dos revolucionários? Como deve ser e agir um revolucionário? Em
que medida as questões individuais interessam à revolução? Em que momento?
Herbert Daniel fez a escolha pela revolução através da luta armada. Pode-se
dizer que tenha assumido a ‘causa’ no sentido mais altruísta do termo, disposto
a morrer por um mundo melhor ainda que para as próximas gerações. Entretanto, o
diálogo entre o visível (evidente) e o invisível (interiorizado) no que se
refere à homossexualidade é um questionamento constante na sua vida, gerando
reflexões em sintonia com a atuação política.
Meus problemas pequeno-burgueses me preocupavam,
como tantos empecilhos que eu tivesse para poder me tornar um bom
revolucionário. Entre eles a sexualidade, mais explicitamente, a
homossexualidade. Desde que comecei a militar, senti que tinha uma opção a
fazer: ou eu levaria uma vida sexual regular – e transtornada, secreta e
absurda, isto é, puramente “pequeno-burguesa”, para não dizer “reacionária”, ou
então faria a revolução. Eu queria fazer a revolução. Conclusão: deveria
“esquecer” minha sexualidade. (Daniel, 1982:96).
Em 1967, Herbert Daniel entra na política. Militante da
Política Operária – Polop -, Comandos de Libertação Nacional – Colina -,
Vanguarda Armada Revolucionária - Var-Palmares - e Vanguarda Popular
Revolucionária - VPR -, nesta ordem, vive clandestino durante seis anos, entre
1969 e 1974, sem nunca ter sido preso.(9) Na época em que Betinho toma o maoísmo
como referência, Herbert Daniel, a partir do final de janeiro de 1969, inicia
sua vida clandestina sob a inspiração de Che Guevara. Opta pela luta armada e
faz “sua primeira experiência de guerrilha urbana (assalto a banco) no início do
ano” (Daniel, 1982:27).
Durante a clandestinidade acompanha pelos jornais
notícias de torturas e fotos de companheiros mortos e a sua própria foto
divulgada como um guerrilheiro procurado pela polícia. Contudo, mesmo a morte é
vista como uma bandeira de luta. Nesse sentido, a morte de Che Guevara é para os
revolucionários, de certa forma, uma vitória, uma justificativa. “Foi uma morte
plena de esperança” (Daniel, 1982:94). Ainda em 1969, depois de ter vindo para o
Rio de Janeiro, parte para Ribeira, área de treinamento da guerrilha rural, o
grande objetivo na época. Em abril de 1970, o Exército cerca Ribeira, mas Daniel
consegue escapar e volta ao Rio de Janeiro onde participa do sequestro do
embaixador da Alemanha. No final do mesmo ano, novo sequestro, dessa vez é o
embaixador suíço.
O relato de Herbert Daniel sobre os partidos de
esquerda, especialmente a esquerda armada, é bastante duro. Critica-os por se
verem como o ‘Instrumento’ que poderá conduzir as massas, quando na verdade
estão distantes delas e só criam expectativas. Afirma que têm “…a idéia
messiânica de que a massa não se move sem a direção duma
vanguarda. O que é perfeitamente absurdo” (Daniel, 1982:61). Outra
crítica refere-se ao fato da organização política ser vista como uma atividade
preparatória ao político, gerando “a incompreensão do tempo político, a criação
artificial de um “momento de espera” (Daniel, 1982:62). Sob seu ponto de
vista, nos partidos não se fala em continuidades, mas sobre a necessidade de
‘seguir até o fim.’
No final de 1971, Herbert Daniel conhece Cláudio
Mesquita que vem a ser seu companheiro durante vinte anos. Na ocasião, Cláudio o
esconde da polícia em sua casa, mas o esconderijo acaba sendo localizado e a
partir de então passam a fugir juntos. Em 1974, saem do Brasil pela fronteira
argentina, depois vão para a França. O primeiro contato não agrada e resolvem ir
para Portugal, onde Daniel trabalha como jornalista numa revista feminina. Em
1976 voltam a Paris, depois da morte num acidente de moto de um companheiro
também exilado. Mais seis anos em suspenso, entre 1974 e 1981, dessa vez no
exílio.
Paris é para Herbert Daniel uma experiência de rupturas.
Ele resolve não fazer um grupo de estudos sobre o marxismo, prática comum na
época, mas olhar para si. Neste período, lê muitos romances policiais e de
ficção.
Não me interessava fazer “política” assim. Fechar-se no
exílio num círculo de vícios da mistificação não resolveria minhas confusas
artimanhas. Estava decidido a encontrar soluções para certos problemas que a
coerência me impede de chamar pessoais, mas a prudência me aconselha a não
chamar políticos. Sendo, porém, políticos, pessoais e intransferíveis, pensei
dar um salto, uma fuga, um corte. Resolvi que precisava me resolver e às minhas
dúvidas.
O homossexualismo era ainda uma
pendência.
Comecei – no exílio – a conhecê-lo, e suas regras.
Ferozes. O cerco. O círculo.
Desde sempre me dava conta duma armadilha. E me dizia:
se escapei de uma seita, não foi para cair num gueto. (Daniel,
1982:154-5).
Herbert Daniel trabalha na mais luxuosa sauna gay de
Paris, o que lhe possibilita o contato com um mundo novo repleto de códigos e
mensagens desconhecidos. Não consegue se manter por muito tempo nesta sauna,
devido à rede de intrigas que percebe entre os empregados, que procuram
impressionar os patrões, e pela exploração sofrida por serem majoritariamente
imigrantes. Apesar da homossexualidade trazer um fator agregativo, marcado pela
identidade ou pelo estigma, as desigualdades de classe aparecem. Os
entrecruzamentos entre preconceitos e desigualdades sociais estão sempre
presentes para Herbert Daniel. A busca por resolver suas dúvidas o leva ao
reconhecimento da homossexualidade e simultaneamente ao estranhamento com o
mundo gay e o incômodo com o gueto.
O gueto homossexual hoje em dia, nos países
desenvolvidos, é antes de tudo um conjunto de comércios. Bares, cinemas,
restaurantes (pergunto: por que restaurantes especializados? Bichas, a não ser
umas às outras, comem diferente?)… Enfim, todas as atrações possíveis do consumo
se especializam para homossexuais: da livraria à loja de periquitos, passando
pela hóstia consagrada. E tudo aí é mais caro.
Mais caro porque “especializado”: paga-se a instauração
da cidadania homossexual (…).
E a defesa dos interesses desse mercado não deixa de
assumir formas políticas curiosas. Passa, sempre, pela forma de “defesa de
interesses homossexuais” (Daniel, 1982:173).
Apesar de estar afastado das discussões políticas em
Paris, é convidado a discutir sobre questões ligadas às minorias, que passam a
ter visibilidade no momento, como a ecologia e a homossexualidade. Assim,
aproxima-se da Comissão de Cultura do Comitê Brasil pela Anistia – CBA -,
formado por pessoas consideradas mais lights, que propõem um debate a respeito.
“Proposta indecorosa” foi o título do panfleto de divulgação do debate sobre
“Homossexualidade e Política”, encaminhado por esta Comissão, em 1979, em Paris.
Há muita polêmica, pois para alguns esta não passa de uma questão “absolutamente
secundária” (Daniel, 1982:214). Depois de muita discussão, a proposta é
retirada, mas o evento acontece como uma reunião pública na Casa do Brasil, na
Cidade Universitária.
É durante o relato desse episódio que Herbert Daniel
menciona um outro tipo de exílio, o imposto pelo silêncio: “O silêncio é a forma
do discurso duma certa parcela da esquerda sobre a homossexualidade. É uma forma
de exilar os homossexuais” (Daniel, 1982:217). O silêncio imposto pela censura,
seja a da ditadura, seja a dos preconceitos, interiorizados e propagados nas
relações intersubjetivas, pode funcionar como elemento chave nos vários debates
que Herbert Daniel provoca. O silêncio é expresso nos seus vários escritos,
através das experiências pessoais daqueles que viveram/vivem sob o cenário da
ditadura ou da pandemia da aids. Um silêncio marcado por uma imposição externa,
no primeiro caso, ou por uma auto-repressão e culpabilização pela
homossexualidade e a aids. A ditadura e a aids aparecem como conjunturas
históricas, mas a auto-reflexão sobre a homossexualidade atravessa os dois
momentos. Ainda que a coerção externa seja mais forte com a ditadura, a
violência simbólica está presente e não é menos importante, ao contrário, parece
ser o centro da atenção do autor. Nesse sentido, o exílio se confunde com o
silêncio.
No período do referido debate, em Paris, Herbert Daniel
produz com Cláudio Mesquita alguns fascículos datilografados chamados “Notas
Marginais”, posteriormente sintetizados e publicados, em 1983, em “Jacarés e
Lobisomens: dois ensaios sobre a homossexualidade.” O último capítulo do livro -
“A síndrome do preconceito” - é um dos primeiros artigos sobre a aids publicado
no Brasil.(10) A partir daí começa a refletir teoricamente sobre a
homossexualidade, que é vista como um assunto secundário por muitos, ou sugerida
como tema para um possível núcleo gay dentro do partido político. Herbert Daniel
discorda, pois considera que o debate não deve ser apenas entre os gays, mas
mais amplo. Entendido como um problema mais geral, de cidadania, de respeito às
diferenças, um tema de debate público por se tratar de um direito
individual.
Em 1979, a anistia possibilita a volta de vários
exilados, mas Herbert Daniel ainda não pode voltar ao Brasil. Sua pena só será
prescrita em maio de 1981.
Ah, nem, que não, que não, que não escrevo assim: “foi”.
Nem vê, num vou comprometer-me em relatórios. Não pode, ainda não pode, que é só
1981 e tem aí seja um general que lê, seja um esseenii que cataloga, um punho
que aguarda, que não abriu. Aguardo diante dos portos que tenho fechados, neste
resto de exílio que alonga ainda mais uma certa solidão que sempre me pareceu
destinação inevitável e temida. Um dos últimos no exílio, já quase nem se fala
em anistia – e ela nem houve, estou aqui que não me deixo mentir. (Daniel,
1982:146).
Decide-se a escrever uma carta que acaba restrita ao
Congresso do Comitê Brasil pela Anistia e não gera repercussão. Na ocasião,
alguns alegam desmobilização, outros falam do seu tom pessoal na carta e ainda,
que exilado não está mais na moda. Daniel resolve escrever uma segunda carta,
desta vez dirigida à mãe do Henfil e este a publica.(11) Posteriormente, o
jornal Lampião de Esquina - jornal gay publicado entre 1979 e 1981 - a publica
na íntegra. Na apresentação da carta, o jornal relata um incidente no Congresso
do CBA, quando um dos delegados presentes se opôs a leitura da carta enviada por
Herbert Daniel por ele ser “simplesmente uma bicha” (Daniel, 1982:229).
Em maio de 1981, conclui o livro “Passagem para o
próximo sonho”, em Paris, que procura ser um livro menos de memórias e mais de
lembranças, como prefere dizer. Através das lembranças traça sua trajetória
política e os doze anos vividos entre a clandestinidade e o exílio. O livro é
publicado no Brasil em 1982, reunindo as discussões sobre a guerrilha àquelas
sobre a homossexualidade. A leitura de Herbert Daniel sobre o período da
clandestinidade e do exílio é mais intimista se comparada à de Betinho. O
primeiro descreve ambientes, reuniões ‘entre nuvens de fumaça de cigarro’,
Betinho, por sua vez, traz contextos de experiências políticas
profissionais.
Enfim, o último exilado retorna ao Brasil em 1981. Chega
trazendo discussões sobre cultura, ecologia, minorias e, evidentemente,
homossexualidade. O momento de maior visibilidade do Grupo Somos/SP havia
passado e o jornal Lampião não existia mais.(12) No Rio de Janeiro, o Grupo
Somos/RJ ainda mantinha algumas reuniões. Apesar de Herbert Daniel não ser
membro de nenhum grupo gay, sempre manteve o diálogo com os ativistas. Às vezes
reunindo-se com pessoas do Somos/RJ na sua própria casa. O lançamento de
“Passagem para o próximo sonho” torna-se um acontecimento importante para
aglutinar pessoas que transitam na política e no movimento gay. Um outro momento
é o processo da campanha política, quando Daniel começa a romper com a herança
da guerrilha, investindo na democratização do Estado e mais adiante lançando-se
ao parlamento. Na volta do exílio começa a participar do Partido dos
Trabalhadores, que, em 1982, lança a candidatura de Lizst Vieira trazendo essas
discussões para a política. A amizade entre Lizst Vieira, Herbert Daniel e
Cláudio Mesquita data do período do exílio. Herbert Daniel participa ativamente
da campanha e depois trabalha como assessor do Deputado Estadual recém eleito.
Posteriormente, nas eleições de 1986, candidata-se à Deputado Estadual,
associando sua candidatura às de Lizst Vieira para Deputado Federal e Fernando
Gabeira para Governador do Estado do Rio de Janeiro.
No cenário político de 1986, a Plataforma de Herbert
Daniel propõe alternativas: fazer da sexualidade e da ecologia problemáticas que
coloquem em questão a ‘qualidade Da vida’ tendo como referências o corpo e o
meio ambiente, ‘espaços históricos do humano.’
Toda ação política alternativa deve tentar coordenar as
possibilidades de integrar as formas de luta que emergem na sociedade. É preciso
estabelecer vínculos entre as lutas pelo direito à posse da terra com as lutas
que buscam ecologicamente definir uma nova relação com a Terra. É preciso
enlaçar a luta dos operários por melhores condições de trabalho, com a luta dos
que não querem que o corpo seja um simples aparelho
procriador/reprodutor/produtor. É preciso revelar as ligações entre a violência
que assassina trabalhadores rurais e a violência que destrói as vidas de
mulheres e travestis. (Deixa Aflorar, 1986:2)
O slogan da campanha é: “Não há democracia se ela pára
na porta da fábrica, no fundo do prato, ou na beira da cama.” O discurso que
informa os panfletos e a plataforma da campanha marca o lugar do indivíduo como
sujeito, resultado de suas ações, mas também das relações com os outros.(13)
Sujeito da História e de sua própria história. Por terem criatividade e
capacidade de inventividade, os indivíduos que se sabem sujeitos podem intervir
no curso da própria vida e na vida social. Antes de mais nada, é a prática
social o ponto de partida e o espaço relacional deve possibilitar a expressão
das diferenças. Em contraposição à idéia da defesa de uma humanidade abstrata,
propõe-se a defesa da diversidade no esforço para vivermos juntos com liberdade
e justiça social para todos.
Os reclames pela atenção aos direitos civis ocupam um
lugar de extrema importância, inegavelmente pelo cerceamento dos anos de
ditadura. Mas, isto não significa dizer que o exercício dos direitos se reduza
ao legal, ao contrário, o direito à diferença está ancorado na prática social,
que não pode ser mudada apenas pelo formalismo da lei, ainda que esta exerça um
papel importante no reconhecimento de novos direitos. Por um lado, romper o
silêncio é necessário e a luta simbólica é primordial, por outro, a defesa das
diferenças deve dialogar com uma proposta político-social mais ampla e não
reproduzir o antagonismo que tende a relegar e reprimir os ‘diferentes’.
Em “Somos a maioria”, panfleto da campanha, é nítida a
crítica à idéia de minoria, que parece aproximar-se da concepção deleuziana,
entendida como um devir e um processo, ao mesmo tempo que há um esforço por uma
composição, vislumbrando-se um adversário comum.
Somos quem quer poder trabalhar, morar, ir e vir, sem
ter que obedecer aos padrões sexuais oficiais. Somos quem quer namorar sem a
ameaça do impudor de quem vem no escuro ver. Somos quem não quer piedade, pois
defeito quem tem é quem alija o deficiente físico. Somos quem não quer ser preso
e torturado em asilos que são fábricas de alucinados. Somos quem não tolera o
desrespeito à humanidade do preso. Somos quem quer fumar um sem a ameaça dos
traficantes da violência. Somos quem quer um menor contingente armado de homens
nas ruas da cidade, queremos menos guerra civil. (...)
Tendo por referências as liberdades individuais e a
mudança da sociedade, é compreensível que a campanha com Lizst Vieira, em 1986,
tenha sido orientada sob eixos de discussões em torno do corpo e do meio
ambiente, configurando a proposta de uma política de vida. Há também nitidamente
um esforço para não dissociar a relação indivíduo-sociedade. O corpo não está
desvinculado da discussão política e quando se diz o corpo, a experiência é
harmônica entre o físico e o mental, o racional e o afetivo. O corpo é
indivisível e suas experiências são múltiplas. Herbert Daniel está sempre
apontando o limiar, o corpo é o intermediário entre o parcial e o geral, e isso se repete de forma mais
ampla.
As dificuldades na campanha vão desde o financeiro até o
apoio político. Os militantes ou ex-militantes gays não aderem à campanha em
peso, como esperado, por ser uma candidatura abertamente gay. Vale dizer que a
relação entre Herbert Daniel e o movimento gay sempre foi permeada por
divergências. Para Daniel, é necessário fazer da (homos)sexualidade um tema de
debate público, mas na sua visão os grupos gays às vezes aprisionam-se a uma
identidade que os leva à guetização, o que politicamente não o agrada. Sua
questão central são as liberdades individuais e a mudança da sociedade e
não a causa gay, ainda que problematize as questões individuais. Considera
importante falar na primeira pessoa como se o engajamento em nome próprio,
através da exposição de si, tomasse um valor de engajamento coletivo. Na época
da campanha, em entrevista à Folha de São Paulo, falou a
respeito.
É importante, para mim, afirmar a minha vivência
homossexual exatamente para desestruturar o conceito, para desorganizar uma
discriminação e ser capaz, a partir desse ponto, de discutir uma nova ética, que
não separe a vida privada da vida pública, que faz do político um representante
que não substitui o representado e que seja capaz de discutir a cidadania da
forma mais ampla possível. Não faço disso ponto central da minha plataforma.
Acho que a sexualidade é uma questão extremamente importante a ser discutida e
acredito que os homossexuais que se escondem estão fazendo o jogo de uma
opressão, que é uma opressão que não atinge apenas uma minoria dita homossexual,
mas atinge a sexualidade de todos, na medida em que limita as possibilidades de
cada um aceitar e levar adiante aquilo que são as suas diferenças. É preciso que
a democracia garanta que todos possam exercer plenamente suas diferenças.(14)
Em 1986, o cenário político está completamente diferente
daquele em que se desdobrou a campanha de Lizst Vieira, em 1982. No que se
refere à discussão sobre a homossexualidade, novas questões estão em jogo. Por
um lado, o surgimento dos primeiros grupos organizados na luta contra a aids
aglutinam inúmeros ex-militantes do movimento gay. Por outro lado, há toda uma
mobilização social em torno da expectativa da Assembléia Nacional Constituinte,
quando alguns grupos gays empenham-se para incluir a não-discriminação por
orientação sexual na atual Constituição Brasileira.(15) Mesmo que não se tenha
ganho as eleições, as campanhas possibilitam a introdução de temas considerados
até então como restritos à esfera privada ou tidos como menos importantes frente
ao que se considera como prioridade na política, como as discussões
macroestruturais e/ou econômicas.
Em 1983, Herbert Daniel já havia escrito “A síndrome do
preconceito”, mas depois de 1987, quando vai trabalhar na Abia e,
principalmente, depois de 1989, quando descobre que está soropositivo, passa a
escrever mais sobre a pandemia da aids. Ainda que “Alegres e irresponsáveis
abacaxis americanos” seja um romance que focaliza diretamente a questão da aids,
a maioria dos seus escritos a respeito são voltados à intervenção política. Suas
preocupações tornam-se mais detidas nas políticas sobre aids, escreve inúmeros artigos a respeito e
passa a ser o primeiro editor do Boletim Abia.
Em 1989, depois de uma tuberculose ganglionar, Herbert
Daniel toma conhecimento de sua soropositividade.
Recebi a notícia de que estava com Aids de forma mais
traumatizante do que a provocada pelo simples fato de me saber doente com tal
gravidade. O médico que procurei, numa urgência, me comunicou que eu estava
doente, me deu uma receita, me cobrou quarenta mil cruzados e me dispensou do
seu gabinete. Tudo isto em quarenta segundos. Foi este o tempo de que dispôs e
me deu, para absorver o choque. Enquanto isso, me encarava com uma olímpica
indiferença de técnico de laboratório. Eu era apenas uma doença. E, o que é
pior, uma doença de homossexual. Estou convencido de que é o preconceito que
provoca tamanha desumanidade, associado a uma ignorância completa sobre a
pandemia. Há uma sutil violência, gerada pelos preconceitos, que faz crer que um
homossexual está sendo castigado por uma culpa que carrega. Não é um doente; é
um relapso. (Daniel, 1989b:10).
Começa a discutir com amigos, alguns vivendo com aids,
sobre a criação de um grupo que defenda os direitos das pessoas vivendo com HIV
e aids, ajudando-lhes a romper o silêncio imposto pela ‘morte civil.’ Em maio de
1989, funda o Grupo Pela Vidda – Valorização, Integração e Dignidade do Doente
de Aids –, o primeiro grupo brasileiro formado por pessoas vivendo com HIV ou
aids. Ainda no mesmo ano, escreve “Vida antes da morte”, em edição bilingüe,
para ser levado à V Conferência Internacional sobre Aids, em Montreal. Esta
Conferência é considerada como o momento de maior expressão dos grupos
organizados na luta contra a aids e de maior visibilidade das pessoas
soropositivas ou com aids, reforçando o projeto de criação do Grupo Pela Vidda.
O discurso de Herbert Daniel traz a especificidade da aids ainda permeada por
uma certa utopia revolucionária.
Por isto, quando vejo o trabalho realizado por esta
ampla rede de solidariedade mundial entendo que estamos montando hoje o futuro,
estamos fazendo o tempo. As pessoas passam. Sei que muitos, como eu, não teremos
tempo de ver a vitória definitiva contra a AIDS. Mas temos o tempo de ver a
vitória de hoje. Esta vitória que estamos consolidando
aqui.(16)
A associação direta entre aids e homossexualidade, e a
aids como uma doença fatal são bastante fortes na época. E como é “…só
“ pessoalmente” que a gente sofre o problema de todo mundo” (Daniel,
1982:227), a experiência da soropositividade é para Daniel, como fora a da
homossexualidade, um veículo para refletir sobre as interseções entre o
individual e o coletivo. Daniel funda o Grupo Pela Vidda criando uma proposição
pela vida e contra a morte, que nesse momento não está mais carregada de
esperança numa nova sociedade, mas da negação do indivíduo.
Como registrado por Défert (1994), até 1989 a pandemia
da aids é pensada como infecciosa, rápida e mortal, depois começa-se a trabalhar
sob o modelo do câncer que propõe uma cronicidade da patologia seguindo
protocolos terapêuticos sucessivos. A visibilidade das pessoas vivendo com HIV
ou aids tem uma enorme influência no ritmo das pesquisas médicas, especialmente
nos anos de incerteza, e reforça a esperança de vida, pois muitas pessoas depois
de terem sido desenganadas continuam vivendo. Muitos dos escritos de Herbert
Daniel e sua atuação na luta contra a aids contribuem para superar os
preconceitos e ajudar as próprias pessoas soropositivas ou com aids a assumirem
sua nova condição. Em “O primeiro AZT a gente nunca esquece” procura
desmistificar o uso do AZT, primeiro medicamento associado diretamente à aids,
no momento em que fazia uso do mesmo.
Em geral, nos escritos de Herbert Daniel estão presentes
a clandestinização e a solidão. Sentimentos e condições referidos pela
homossexualidade e pela experiência política. Quando começa a escrever sobre a
aids é como se estes sentimentos se atualizassem, aproximando-se do que Pollak,
ao analisar a experiência da doença dos homossexuais com aids, aponta como
principais características: “...o segredo e o silêncio, e na medida do possível
a manutenção de uma continuidade de vida: tudo muda na visão que o doente tem de
si mesmo, mas nada deve mudar na imagem que os outros têm dele.” (Pollak,
1990:99). Apesar das alterações no próprio corpo também serem reveladoras e
geradoras de rupturas inevitáveis.
As trajetórias de Herbert Daniel e Betinho indicam
valorizações distintas de aspectos que são complementares e estão presentes para
os dois, ainda que uns mais acentuados do que outros. Betinho oferece um projeto
macro, que na fundação da Abia é quase uma continuidade da maneira de pensar o
Ibase e a questão do sangue também é um revelador, um tema propício a isso. Seu
discurso é inegavelmente marcado pelo diálogo constante com a igreja
progressista, tendo como um componente importante a idéia de ‘povo’, que tem de
ser instruído. Entretanto, a experiência com a aids parece contribuir na atenção
gradativa ao indivíduo como o ponto de partida das ações políticas. Herbert
Daniel, devido a sua própria trajetória, problematiza as questões individuais no
recente esforço de democratização da sociedade brasileira. Seu discurso nos
primeiros Boletins Pela Vidda reforça o intuito de relacionar interesses
individuais e sociais. Para Daniel é importante falar na primeira pessoa, porque
através da exposição de si as necessidades tradicionalmente consideradas
privadas podem ser tomadas como o cerne da questão, contribuindo para a
ampliação dos espaços públicos. A superação dos preconceitos que geram solidão,
silêncio e segredo, as liberdades individuais e os projetos coletivos são vistos
como elementos interrelacionados e em conflito. As categorias e os argumentos
utilizados nos seus romances e escritos políticos reúnem suas inquietações
pessoais, a herança marxista e muito provavelmente as discussões intelectuais
que permeavam a Europa no final dos anos 70, quando esteve exilado.
Herbert Daniel morreu aos 45 anos, em 29 de março de
1992, dirigindo a Abia e na presidência do Grupo Pela Vidda/RJ. No encerramento
da VIII Conferência Internacional sobre Aids, em Amsterdam, foi lido um texto de
sua autoria em apoio aos portadores do vírus HIV, por Claúdio Mesquita e pela
Coordenadora da Assessoria e Orientação Jurídica do Grupo Pela
Vidda/RJ.
Agenor Miranda de Araujo Neto,
Cazuza
A aids cruza caminhos que pareciam até então díspares. A
terceira presença pública, referência na criação da Sociedade Viva Cazuza e
extremamente presente no cenário da aids no Brasil, é a do cantor e compositor
Cazuza. Nascido no dia 4 de abril de 1958, registrado Agenor de Miranda Araujo
Neto, em homenagem ao avô paterno, desde criança é chamado de Cazuza.(17) Cazuza
não atuou num grupo organizado, mas a relevância que possui para a presente
reflexão deve-se a alguns fatores.
Primeiro, no auge de sua carreira como cantor pop,
Cazuza enfrenta as associações pejorativas entre a aids e o mundo artístico. Os
estereótipos de que no meio artístico há uma circulação livre de drogas e de que
os artistas possuem vidas sexuais descompromissadas são elementos que levam a
correlações diretas, comuns nos primeiros anos e que ainda perpassam o
imaginário social da aids. Não se pode esquecer que a aids surge associada a
práticas sexuais consideradas irresponsáveis, promíscuas, pecaminosas e a
liberdade sexual, segundo a moral conservadora, é responsável pela pandemia.
Cazuza rompe a aura de segredos que perpassa as discussões sobre a aids fazendo
de muitas pessoas reféns dos seus próprios medos. Em segundo lugar, através da
manipulação de sua pessoa pública, contribui para a criação de uma referência
simbólica positiva para as pessoas com aids. Em terceiro lugar, utiliza-se do
mesmo instrumento que vinha veiculando informações negativas sobre a pandemia da
aids: a mídia. E, os grupos organizados e a mídia possuem um papel fundamental
na comunicação e na criação dos laços de solidariedade em torno da aids. Neste
sentido, Cazuza ao se expor publicamente age como um ativista. Seu testemunho
toma a forma de denúncia pública. É neste sentido que o engajamento público
consiste na exposição da pessoa (Peroni, 1997). No caso, na exposição de uma
pessoa vivendo com aids.
A carreira de Cazuza começa em 1981, como vocalista do
grupo de rock Barão Vermelho, e a partir de 1986, segue na carreira solo.(18) Ao
longo de sua vida pública, paralelamente às primeiras notícias sobre a aids,
Cazuza sempre fez declarações polêmicas na mídia falando abertamente sobre
sexualidade e uso de drogas.
Eu fico feliz quando penso que o homem difere dos bichos
e das plantas porque pode amar sem reproduzir – embora o Papa não goste disso. O
homem transa por prazer. Então pode ser homem com homem, mulher com mulher, com
diafragma, com pílula, com o que for… Homossexualismo é assim uma coisa normal.
E o hetero, e o bissexualismo. O homem pode amar independente do sexo, porque
ele não é bicho, não é planta. Se o cara não quer, não sente atração, tudo bem.
Mas não tem esse negócio de regra geral quando se fala de amor. Quando pinta
tesão, estou com Tim Maia e Sandra de Sá: ‘vale tudo’, mesmo! (Araujo,
1998:358).
Você é bissexual? Eu digo que sou. Quem é seu ídolo? Eu
conto. É um defeito. Acabo ficando com fama de bêbado, homossexual e maluco…
(Araujo, 1998:362).
Acho que a gente tem que saber usar as coisas e não
deixar que as coisas usem a gente. As drogas, principalmente as lisérgicas, me
ajudaram muito na minha adolescência. Me ajudaram a entender o mundo de uma
outra maneira, me ajudaram a ser uma pessoa mais segura de mim mesmo. Minha
experiência com as drogas foi fantástica, só me fez bem. Mas foi uma coisa de
adolescência, depois eu me tornei mais biriteiro (Araujo,
1998:392-3).
No extremo, Cazuza publiciza a liberdade e o prazer, sem
Deus e sem culpa.
Em 1987, recebe o diagnóstico de aids. Seu médico,
afirmando não conhecer bem a doença, indica que seja procurado um hospital em
Boston onde as pesquisas estão avançadas. Entre 1985 e 1989, um dos períodos
mais duros da pandemia da aids, simultaneamente marcado pela carência de
tratamentos e medicamentos, e pelo surgimento dos primeiros grupos organizados e
da visibilidade das pessoas vivendo com HIV ou aids, é o período em que a
imprensa especula sobre a possibilidade de Cazuza estar com aids, o que ele
nega: “Não gosto que me perguntem se estou com aids. Me faz lembrar uma coisa
que eu quero esquecer. Contei para muito pouca gente o que eu passei no
hospital. Mas todo mundo sabe o que eu tenho” (Araujo, 1998:386).
Em 12 de fevereiro de 1989, em entrevista à Folha de São
Paulo, Cazuza muda de postura e assume publicamente que está com aids,
revelando-se uma figura emblemática entre os artistas.(19) Segundo Fausto Neto
(1991), desde então a postura da mídia também muda. O fato de ter assumido
publicamente estar vivendo com aids, num momento em que as associações com a
homossexualidade e a morte eram diretas, é visto não só como um exemplo, mas
como uma possibilidade de dignidade na vida de uma pessoa com aids. Com seu
depoimento, como destaca Galvão (1992:104): “Cazuza ajuda a desnudar um
mecanismo onde o mais importante é fazer falar sobre o que está encoberto.” Vai
ao encontro do artigo de Herbert Daniel – “Notícias da outra vida” – publicado
no Jornal do Brasil, que apresenta as formas como os preconceitos levam as
pessoas com aids a um processo de
clandestinização.(20)
Com Cazuza a imagem forte do ‘aidético’ pela primeira
vez toma uma conotação positiva. ‘Aidético’ sempre foi uma palavra rejeitada
pelos ativistas por impingir a morte inevitável, gradativamente marcada no corpo
do indivíduo pela magreza, a queda dos cabelos (mais lisos) e a pele escura.
Cazuza vivencia este processo durante o ano de 1988 sob a cobertura da mídia e
ele mesmo “…orquestrava o próximo round da sua luta” (Fausto Neto,
1991:23). Os sinais associados ao ‘aidético’, na verdade os efeitos colaterais
do AZT, passam a ser identificados com a ‘cara de Cazuza.’ Através da figura de
Cazuza há um engajamento da pessoa sob a cena pública. Seus desejos e gostos
tornam-se uma idéia social positiva para as pessoas com aids, pois a exposição
da pessoa rompe com o anonimato. Seu testemunho contribui para a socialização
dessas pessoas porque contribui para a criação de um lugar simbólico para elas,
e o percurso entre a doença e a morte acompanhado pela família e, até certo
ponto, intensificando sua criatividade no trabalho, apresentam publicamente a
vida cotidiana de uma pessoa depois da aids.(21)
A manipulação do estigma, sinalizada na presença de
Cazuza na mídia, ganha relevo pelo paralelo traçado com a doença do ator Lauro
Corona, que não assume publicamente estar com aids. Até a semelhança entre os
dois contribui nas comparações e nas associações explícitas feitas pela mídia.
Como registra Fausto Neto (1991:83-4): “De um lado, a semelhança física dos dois
personagens, havendo até aqueles que diagnosticam Corona, através dos traços
fisionômicos que apresentam e que guardam semelhança com aqueles do compositor
Cazuza.” Se em determinado momento a mídia aproxima os dois artistas, os
desfechos das histórias são diferentes. A doença de Lauro Corona nunca foi
nomeada por aids, entretanto quando seu estado de saúde se agrava e o ator é
internado, a mídia enuncia sua morte (Fausto Neto, 1991). Se os títulos das
matérias e as capas das revistas deixam transparecer menções à morte social de
Corona, com Cazuza o silêncio é rompido.
Até 1988, a presença pública de Cazuza é evidente
através de suas próprias entrevistas, mas, entre 1989 e 1990, a população, e as
pessoas vivendo com HIV ou aids, acompanham o agravamento da situação de saúde
do cantor através das edições semanais serializadas. Cazuza torna-se o
‘sujeito-objeto de um novo cerimonial público.’
Se compararmos o “cerimonial” terapêutico enfrentado
pelo compositor Cazuza com aquele organizado para Corona, veremos que no
primeiro caso optou-se pela publicização, construída à base de vários capítulos,
destacando-se, especialmente, o momento em que a revista Veja
“diagnostica” o “caso Cazuza”. Daí gera-se uma disputa de sentido em torno do
termo agonia, orquestrado pela carta-resposta de Cazuza, pelo
pronunciamento dos artistas, ambos em desaprovação à revista, e ainda pelo que
se segue. Neste caso, até o momento em que a morte não foi “sentenciada” pela
mídia, o caso Cazuza era objeto das mais variadas construções, dando conta da
“batalha” do roqueiro. Porém, quando a enunciação jornalística alude
publicamente à questão da terminalidade da vida, gera-se um conjunto de
protestos e recusas” (Fausto Neto, 1991:67).
O episódio a que se refere o autor é a edição da revista
Veja de 26 de abril de 1989, intitulada: “Cazuza. Uma vítima agoniza em
praça pública.” A revista apresenta na capa uma foto do cantor acompanhada do
título da matéria anunciando uma entrevista com Cazuza, na época com o estado de
saúde bastante debilitado. Segundo Araujo (1998), o problema da matéria, e o que
mais indignou Cazuza, foi o fato do jornalista ter posto em questão sua obra e
tê-la considerado terminada, como mostra o último parágrafo da matéria: “Cazuza
não é um gênio da música. É até discutível se sua obra irá perdurar, de tão
colada que está no tempo presente.”.(22)
Cazuza fica extremamente abalado e acaba sendo
hospitalizado. Na volta para casa, escreve uma carta-resposta publicada em
vários jornais e revistas: “Veja, a agonia de uma revista”. Em sintonia com as
discussões de Betinho e Herbert Daniel, afirma: “Não estou em agonia, não estou
morrendo. Posso morrer a qualquer momento, como qualquer pessoa viva. Afinal,
quem sabe com certeza o quanto ainda vai durar?” (Araujo, 1998:284). É o
testemunho de sua própria impotência que revela a força da exposição da pessoa.
Quatro dias depois da edição de Veja, artistas e intelectuais saem em defesa de
Cazuza. O manifesto “Brasil, mostra a tua cara”, assinado por dezenas de pessoas
das mais diversas áreas, é publicado no Jornal do Brasil em repúdio e
contra o tratamento dispensado pela revista Veja à Cazuza, por ter anunciado sua
morte e apontado-o como vítima da aids. O episódio suscita discussões sobre a
privacidade e a ética no jornalismo.
As declarações de Cazuza na grande imprensa – jornais e
televisão - ajudam a dar corpo à multiplicidade de facetas que a aids
rapidamente adquire. Afinam-se com a mobilização da sociedade naquele momento.
Por um lado, Betinho completamente envolvido com a questão do sangue e o
processo da Assembléia Nacional Constituinte, entre 1987 e 1988, por outro,
Herbert Daniel fundando o Grupo Pela Vidda/RJ, em 1989, momento em que as
pessoas com aids começam a aparecer e que a esperança de vida torna-se uma
possibilidade. A aids está na ordem do dia. Cazuza estabelece um diálogo com os
grupos organizados, ainda que indireto. Seu discurso está sempre marcado pela
indignação com o preconceito, a fome e a violência. Sobre a aids, fazia-se
presente sempre contra o anúncio da morte e a aceitação da mesma. Além disso, a
Abia e o Grupo Pela Vidda/RJ até por serem presididos por dois intelectuais, têm
alguma proximidade – pessoal ou pelas figuras públicas – com o mundo artístico.
Alvos de especulações da imprensa, especialmente no começo da pandemia, inúmeros
artistas colaboraram, e ainda colaboram com campanhas, governamentais ou não,
contra a aids. Cazuza, ao mesmo tempo que não está sozinho nesse cenário,
sente-se compromissado com seu público. A imprensa conduz a atenção dos
espectadores para os acontecimentos da vida cotidiana, atribuindo ao discurso
privado o estatuto de discurso público. Além de manifestar uma vontade pessoal,
sendo uma pessoa pública, Cazuza soube conduzir sua narrativa.
Quando eu estava no hospital de Boston, pensei muito e
acabei descobrindo que ficar calado me deixava ainda mais traumatizado. É uma
situação ambígua, de esconde-esconde. Mostrar aos outros que com aids pode-se
continuar vivendo, trabalhando, produzindo me pareceu o caminho mais certo.
Agora me sinto mais aliviado (Araujo, 1998:395).
Cazuza morreu aos 32 anos, em 7 de julho de 1990.(23)
Deixou 126 músicas gravadas por ele, 34 por outros intérpretes e mais de 60
inéditas (Araujo, 1998:282). Depois de sua morte, sua mãe foi procurada por
Betinho e Herbert Daniel para se juntar à luta contra a aids. Não aceitou ao
convite porque, como afirma, “… queria distância das recordações de sofrimento”
(Araujo, 1998:337), mas três meses depois funda a ‘Sociedade Viva Cazuza, Amigos
da Décima Enfermaria do Hospital Universitário Gaffré e Guinle’, a primeira
razão social, em 17 de outubro de 1990.
O sofrimento causado pela aids leva algumas pessoas ao
engajamento coletivo. Isto é evidente nas trajetórias de muitas pessoas
soropositivas, mas também nas daquelas que passam pela experiência da perda de
um ente querido. O sofrimento deixa de ser o ponto limite para tornar-se o ponto
de partida. Betinho, Daniel e Cazuza são, cada um a seu modo, figuras
emblemáticas da responsabilidade porque conseguem se contatar com as
repercussões que a aids causa em suas vidas, ao mesmo tempo que entendem a
pandemia como um fenômeno coletivo mundial, o que lhes permite atribuir o
sofrimento pessoal a causas sociais. Por isto, não se vêem como culpados pela
sua aids, mas responsáveis pelo que passam a fazer com ela. O engajamento
público e a exposição da pessoa enunciam uma crise do espaço público como lugar
de ação, põem em evidência a impossibilidade de agir (Peroni, 1997). Logo,
minimizar os efeitos negativos da pandemia da aids supõe agir coletivamente e
produzir novas referências simbólicas, num constante movimento circular entre os
indivíduos e a coletividade. É neste sentido que, como afirma Elias (1993:52):
“A pessoa singular não é um início, e as suas relações com outras pessoas não
têm um início.”
NOTAS
1- O surgimento da aids é
caracterizado pela dimensão internacional, apreendida diferenciadamente nos
contextos locais. Neste sentido, ao longo do texto faz-se referência à pandemia
da aids, ainda que o enfoque seja sobre o cenário brasileiro, com o intuito de
enfatizar significados e interlocuções que vão além das fronteiras
nacionais.
2- Landim (1999) refere-se à
“geração 68” para destacar a presença de pessoas que tinham sido exiladas e/ou
presas durante o regime militar no campo de atuação social das ONGs, entendidas
como sendo uma alternativa às organizações clandestinas.
3- Anos depois Betinho precisou
voltar a tomar a Hidrazida na profilaxia para uma das principais doenças
oportunistas decorrentes da infecção pelo HIV: a tuberculose.
4- A AP é constituída em fevereiro
de 1963, em Salvador, a partir da atuação da JUC. Até 1964, possui forte
presença no movimento social. Depois do Golpe, rearticula-se, em 1965, em
Niterói, reafirmando a opção socialista, incorporando a luta armada de
libertação nacional e inclinando-se gradativamente para o marxismo-leninismo. Em
1968, marca sua opção pelo maoísmo. Entre 1964 e 1968, a AP torna-se expressiva
no movimento estudantil. Em março de 1971, define-se formalmente como uma
organização marxista-leninista e logo depois é decidida a unificação com o PC do
B, que se tornará apenas uma incorporação em 1973. Os que se opõem, mantêm a AP
com o Programa definido em 1971. Ver Reis Filho e Ferreira de Sá
(1985).
5- Depoimento de Betinho registrado
no CD-Rom “Sementes de Solidariedade.”
6- A primeira, criada em 1985, em
São Paulo, foi o Grupo de Apoio à Prevenção à Aids – Gapa.
7- Henrique de Souza Filho, o
Henfil, e Francisco Mário, irmãos de Betinho e também hemofílicos, morreram em
1988.
8- Sobre a Ação da Cidadania contra
a Fome, a Miséria e Pela Vida, ver os artigos de Landim (1998b) e Soares (1998).
9- Fundada em 1961, a Organização
Revolucionária Marxista – Política Operária (ORM-Polop) destaca-se pelas
propostas sobre o caráter socialista da revolução brasileira. ‘Política
Operária’ é sua publicação mais importante. A ORM-Polop constitui vários núcleos
regionais, inclusive em Minas Gerais. Com bases estudantis, desenvolve um
trabalho político com operários e com os escalões inferiores das Forças Armadas.
Em meados de 1967, no seu IV Congresso, perde quadros para importantes cisões de
Minas Gerais e São Paulo, que formam mais tarde a VPR e os Colina. A cisão de
Minas Gerais realiza uma conferência
em abril de 1968, constituindo uma organização política com caráter
socialista e opção pela guerrilha. Inicialmente não foi adotado nenhum nome,
porque pensava-se numa articulação mais ampla. Ainda em 1968, a organização realiza
“ações de expropriação de fundos e
de propaganda armada quando das greves operárias de Contagem.” (Reis Filho e
Ferreira de Sá, 1985:134). Surge assim o nome Comandos de Libertação Nacional -
Colina. Fortalecidos por outras adesões, os Colina se integram à VPR, em 1969,
formando a VAR-Palmares.
A VPR surge em meados de 1968,
participando das lutas estudantis e da greve operária de Osasco. Em julho de
1969, funda junto com os Colina a VAR-Palmares, mas por divergências quanto à
relação luta armada-lutas sociais é reconstituída em setembro do mesmo ano. A
VPR fica conhecida por ações como “expropriação de armas no quartel do 4º
Regimento de Infantaria de São Paulo, quando o capitão Lamarca abandonaria o
exército (...). Em 1970: seqüestros do cônsul japonês em São Paulo (março) e dos
embaixadores alemão (com a ALN) e suiço (junho e dezembro), trocados pela vida
de 115 militantes presos; rompimento do cerco ao campo de treinamento
guerrilheiro da VPR no Vale da Ribeira.” (Reis Filho e Ferreira de Sá,
1985:223).
10- O livro é escrito em co-autoria
com Leila Míccolis.
11- O cartunista Henfil (irmão de
Betinho) viveu em Nova York, entre 1973 e 1975. Durante o período, escreveu em torno de 600 cartas para os
amigos e para sua mãe. Algumas das cartas recuperadas estão publicadas no livro
“Diário de um Cucaracha” (1983). O livro “Diretas Já” (1984) reúne mais ‘cartas
à mãe.’
12- Sobre o Grupo Somos de
Afirmação Homossexual, grupo gay com maior visibilidade no período da abertura
política, ver MacRae (1990).
13- Os panfletos, coloridos, são
intitulados: ‘Não nos tirem o que não podem dar’, ‘Dezobedecer’, ‘A gente
somos inumerável’, ‘Somos a maioria’ e ‘Qualquer maneira de amor vale a
pena.’
14- Entrevista de Herbert Daniel à
Marcelo Beraba para a Folha de São Paulo, publicada no dia 28 de setembro de
1986. Reproduzida no boletim Triângulo Rosa, Rio de Janeiro, ano 1, n.1, out.
1986.
15- O acompanhamento das discussões
em torno da orientação sexual, durante a Assembléia Nacional Constituinte, foi
realizado primordialmente pelo grupo Triângulo Rosa. Para mais informações sobre
este processo ver Silva (1993).
16- DANIEL, Herbert. Encarando o
Futuro. Discurso de encerramento da reunião Oportunidades para a Solidariedade,
Montreal, 4 de junho de 1989. Ação Anti-Aids, Rio de Janeiro, n.6, p.8,
jun. 1989c.
17- Na linguagem popular
nordestina, Cazuza significa moleque.
18- A trajetória de Cazuza é
minuciosamente narrada por Lucinha Araujo, mãe do cantor e comporitor, no livro
“Só as mães são felizes”, publicado em 1998.
19- Sobre as declarações de Cazuza
à imprensa, ver Fausto Neto (1991) – Mortes em derrapagem: os casos Corona e
Cazuza – e o anexo ‘Cazuza segundo Cazuza - o que ele disse’, do livro
de Lucinha Araújo (1998) – Cazuza: só as mães são felizes. Neste último
estão reunidos trechos de entrevistas à mídia impressa entre 1983 e 1988. Os
anos de 1989 e 1990, analisados por Fausto Neto, estão registrados nas matérias
serializadas que divulgaram das idas e vindas ao hospital em Boston até sua
morte.
20- O referido artigo foi publicado
no Jornal do Brasil, de 5 de março de 1989. No box da matéria, sob o título
‘Escritor inconformista’, Herbert Daniel é apresentado como “o primeiro
intelectual homossexual brasileiro a falar publicamente sobre a sua doença.” O
mesmo artigo pode ser encontrado no livro Vida antes da morte (1989).
21- Gomes e Halfoun (1995) destacam
que, surpreendentemente, depois da aids Cazuza torna-se um dos compositores
brasileiros mais criativos.
22- CAZUZA. Uma vítima agoniza em
praça pública. Veja, 26 abr. 1989.
23- O Boletim Pela Vidda registra:
“Cazuza é um símbolo da resistência e luta contra a AIDS, e seu desaparecimento
deixa um vazio em todos nós.” O informe é acompanhado da cópia de uma carta de
Herbert Daniel, em nome da Rede Rio de Solidariedade, dirigida aos pais de
Cazuza.
Referências Bibliográficas
ARAÚJO, Lucinha. Só as mães são felizes. 10ed.
São Paulo: Globo, 1998. 397p.
BOLETIM Pela Vidda, Rio de Janeiro, n.7, p.6, jul.
1990.
BOURDIEU, Pierre. A ilusão biográfica. In: FERREIRA,
Marieta de Moraes, AMADO, Janaína (Orgs.). Usos & abusos da história
oral. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1996. 277p. p.
183-191.
CAZUZA. Uma vítima agoniza em praça pública.
Veja, 26 abr. 1989.
DANIEL, Herbert. Quarenta segundo de AIDS. Boletim
Abia, Rio de Janeiro, n.6, p.4, fev. 1989a.
__. Vida antes da morte/Life before death.
Rio de Janeiro: Jaboti, 1989b.
__. Encarando o Futuro. Discurso de encerramento da
reunião Oportunidades para a Solidariedade, Montreal, 4 de junho de 1989.
Ação Anti-Aids, Rio de Janeiro, n.6, p.8, jun.
1989c.
__. Alegres e irresponsáveis abacaxis americanos.
Rio de Janeiro: Espaço e tempo, 1987.
__. A síndrome do preconceito. DANIEL, Herbert,
MÍCCOLIS, Leila. Jacarés e lobisomens: dois ensaios sobre a
homossexualidade. Rio de Janeiro: Achiamé, 1983. 133p. p.
121-133.
__. Passagem para o próximo sonho. Rio de
Janeiro: Codecri, 1982. 243p.
DANIEL, Herbert, MÍCCOLIS, Leila. Jacarés e
lobisomens: dois ensaios sobre a homossexualidade. Rio de Janeiro: Achiamé,
1983. 133p.
DEFERT, Daniel. Le malade du sida est un réformateur
social. Esprit, Paris, p.100-111, juil. 1994.
DEIXA Aflorar. Plataforma Herbert Daniel – deputado
estadual PT/PV, Rio de Janeiro, 1986. 8p.
DEVIR Revolucionário e as criações políticas (O):
entrevista de Gilles Deleuze a Toni Negri. Novos Estudos Cebrap, São
Paulo, n.28, p. 67-73, out. 1990.
DEZOBEDECER. Panfleto de divulgação da campanha
de Liszt Vieira e Herbert Daniel, pela coligação PT/PV,
1986.
ELIAS, Norbert. A sociedade dos indivíduos. A
sociedade dos indivíduos. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1993. 258p.
p.21-85.
ENTRE Nós – Lucinha Araújo. [Entrevista a Sergio
Barcellos]. Nós Por Exemplo, ano III, n.14, p. 4-5, maio/jun.
1994.
FAUSTO NETO, Antônio. Mortes em derrapagem: os
casos Corona e Cazuza. Rio de Janeiro: Rio Fundo Ed., 1991.
161p.
GALVÃO, Jane. AIDS e Imprensa: Um estudo de
antropologia social. Dissertação (Mestrado em Antopologia Social). Programa
de Pós-Graduação em Antropologia Social/Museu Nacional, Universidade Federal do
Rio de Janeiro, 1992. 151p.
GOMES, Hélio, HALFOUN, Robert. HIV: Bombardeio sobre o
mundo pop. Revista Bizz, p. 53-57, jun. 1995.
HENFIL. Diretas Já. Rio de Janeiro: Record, 1984.
126p.
__. Diário de um cucaracha. 4ªed. Rio de Janeiro:
Record, 1983. 276p.
ION, Jacques. Interventions sociales, engagements
bénévoles et mobilisation des expériences personnelles. In: ION, Jacques,
PERONI, Michel (Orgs.). Engagement public et exposition de la personne.
Paris: Éditions de l’Aube, 1997. 265p. p. 77-84.
LANDIM, Leilah. Em tempo de ONGs [entrevista].
Colóquio, Rio de Janeiro, n.14, p.33-38, 1999.
__. “Experiência militante”: histórias das assim
chamadas ONGs. In: Ações em sociedade: militância, caridade, assistência
etc. Rio de Janeiro: NAU, 1998a. 287p. p. 23-87.
__. Notas sobre a campanha do Betinho: ação cidadã e
diversidades brasileiras. In: Ações em sociedade: militância, caridade,
assistência etc. Rio de Janeiro: NAU, 1998b. 287p. p.
241-287.
LEVI, Giovanni. Usos da biografia. In: FERREIRA, Marieta
de Moraes, AMADO, Janaína (Orgs.). Usos & abusos da história oral.
Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1996. 277p.
p.167-182.
MAcRAE, Edward. A construção da igualdade:
identidade sexual e política no Brasil da abertura. Campinas: Editora da
Unicamp, 1990. 321p.
PERONI, Michel. Engagement public et exposition de la
personne: l’acteur, le spectateur et l’auteur. In: ION, Jacques & PERONI,
Michel (Orgs.). Engagement public et exposition de la personne. Paris:
Éditions de l’Aube, 1997. 265p. p. 249-265.
PIERRET, Janine. Maladie, sciences et société:
l’expérience des personnes atteintes par le VIH. Natures - Sciences -
Sociétés, v.4, n.3, p. 218-227, 1996.
POLLAK, Michael. Os homossexuais e a Aids:
sociologia de uma pandemia. São Paulo: Estação Liberdade, 1990a.
212p.
QUALQUER maneira de amor vale a pena. Panfleto de
divulgação da campanha de Herbert Daniel à deputado estadual pela coligação
PT/PV, Rio de Janeiro, 1986.
REIS FILHO, Daniel Aarão, FERREIRA DE SÁ, Jair (Orgs.).
Imagens da revolução: documentos políticos das organizações clandestinas
de esquerda dos anos 1961-1971. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1985.
368p.
SILVA, Cristina Luci Câmara da. Triângulo Rosa: a
busca pela cidadania dos “homossexuais”. Dissertação (Mestrado em
Sociologia), Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, Universidade Federal do
Rio de Janeiro, 1993. 264p.
SOARES, Luiz Eduardo. A "campanha contra a fome" como
experimento radical. O impacto social do trabalho das ONGs no Brasil. São
Paulo: Abong, 1998. p.11-37.
SOMOS a maioria. Panfleto de divulgação da campanha de
Liszt Vieira e Herbert Daniel, pela coligação PT/PV, 1986. (Reproduzido no
Boletim Abia, ano 6, n. 16, p.1-2, abr. 1992).
SOUZA, Herbert de. A Aids hoje: possibilidades e
desafios. Boletim Abia, Rio de Janeiro, n.35, p. 3, jan./mar.
1997.
__. Revoluções da minha geração [Depoimento a
François Bougon]. São Paulo: Moderna, 1996a. 126p.
__. No fio da navalha. Rio de Janeiro: Revan,
1996b. 206p.
STEPHEN, Carmem, COLLARES, Miriam (Coords.). Sementes
de solidariedade: Betinho e o Ibase na Ação da Cidadania – 1993/97. Rio de
Janeiro: Ibase Memória, 1998. (CD-Rom).
TRIÂNGULO Rosa. Não há democracia se ela pára na porta
da fábrica ou na beira da cama. Triângulo Rosa, Rio de Janeiro, ano 1,
n.1, p. 4, out. 1986.